Ele dá braçadas lentas e cansadas para atravessar a densa atmosfera de desalento da sua existência cada dia mais sem sentido, ancorado por alguma coisa sutil demais para ser descrita, que lhe protege, mas lhe escraviza: grande dádiva da existência!
Não dormi, e começo a lentamente evitar barulhos, raciocínios e pessoas. Não dormi, e preciso continuar Quantas vezes me deparei com esta sensação E agora estou escrevendo uma coisa que não é prosa, nem poesia Apenas pelo desespero de escrever antes de interromper essa rara ocasião de me expressar quando essa poesia acabar, vou atender não sei quantos pacientes depois, vou assinar o ponto de presença ir em direção à lanchonete, comer uma esfiha com café depois chegar em casa, colocar as roupas pra tomar sol, tomar banho e deitar-me longe de todos antes de todos acordarem antes de surgir meus arrependimentos e as coisas que poderia fazer acordado.
há dois anos atrás, haviam pequenas ilusões que ainda não tinham sido destruídas. Elas ocupavam pixels do meu rosto, ali, entre a glabela e o queixo. Os lençóis testemunham o primeiro esquecimento do dia, e com eles vão juntas essas coisas tortas que criei. A cada dia mais, as ilusões desabam do meu rosto e se perdem no esquecimento das noites. O que é a morte senão o desejo de se libertar de uma existência pútrida e incolor? Eu realizo e caminho, mas a fome desampara e riste ao chão, minha cabeça desmaia. Caio, levanto, caio novamente, sorvo o amargo de uma existência senil, olho ao redor, só me vejo sempre, caiado entre quatro paredes de carne. Há cinco solidões. Aquela dos corajosos, aquela dos ousados, aquela dos meditabundos, aquela dos tristes, aquela dos medrosos. Ainda não me situo direito entre todas elas. A vida passa como um esbarrão na Carioca. Você se machuca e não sabe do que foi.
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