a filha fiel
Quando vinha a sua cabeça algum julgamento correto de si mesmo, era sempre sem afeto. Uma frase, como dita pelo psicanalista ortodoxo, vinha à sua cabeça, ríspida como quem quer terminar uma consulta: "Você assim o faz, mas não quer".
Era dele, com certeza, mas a ignorava como um filho que sempre diz a verdade mas o pai o rejeita. Preferia os pensamentos imbuídos de emoção, altivos e magistrais, nos quais poderia confiar a vida um pendor missionário e se livrar do abismo caótico no qual fingia não estar.
Mas doía-lhe o peito. E continuava a se fiar nessas idéias, certo de que elas eram verdadeiras, tamanho o impacto que causavam em seu peito. Queria viver nesse constante estado de angina espiritual.
Até que um dia, sem entender direito, chorou compulsivamente com uma idéia infantil em sua cama, mas a criança a época lhe fugiu, apenas ficando as idéias obesas grandiloquentes.
Onde estava? E chorava mais ainda. O que será dela? Descobriu que a amava. O pensamento desprezado subitamente tornou-se uma tábua de salvação. A sua criança, desnutrida, clamava por atenção, mas tomou a forma de um monstro que lhe corroeu a alma instantaneamente, tal qual ácido sulfúrico. Não a reconhecia, virou mais uma idéia carregada de emoção, mas inflada de bile.
Filha nada pródiga, mas encerrada dentro de si em marasmo dentro do calabouço onde a luz não chega, pouco a pouco deformada, odiou seu dono, mas libertou-se por amá-lo.
Porque ele assim o fazia, mas não queria.
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