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Mostrando postagens de setembro, 2007
Escrevo às cinco da manhã. Há alguma esperança da minha matéria continar a se reproduzir na Terra, em incontáveis diplomas, carros e restaurantes, mitose consumista. Eu não leio os jornais quando passo pela banca, mas fito as frestas de luz no seu teto. Um lampejo me azucrina, eu me recomponho. Passeio e minha visão insiste em bailar, mas sobriamente me calo espiando as grutas de uma moça. Escrevo às dez da manhã. O sol sobe, mas já é tarde demais. Já sei o que tenho de fazer, e continuo a adiar, criador de amanhãs que sou. Escrevo ao meio dia. O sábado morreu. A última viscosidade de vida perambula na praça. O sol da cidade dos mortos, as vitrines dos últimos dias. Meu coração insisto em escrevê-lo, mas ele apenas é um coração que limita suas paredes por uma dor que o localiza. Esforço de escrever às quatro horas. Comida, pede o corpo. O chão ainda não foi sentido. Talvez o sinta quando se deitar nele e enfim desistir de continuar nesse dia. Há um amanhã quando os olhos se fecham, as ...

itinerário da libido - 1

a devassidão não tem rosto. na face angelical encarna o gozo perverso. sobe das entranhas invisíveis e queima os rostos de um pavor libidinoso.

espiões do mal - primeira parte.

Era uma pessoa com intenções terríveis. Ao invés de criar uma ditadura para promover sua ideologia macabra e preconceituosa, virou humorista. E dos bons.

Massa de modelar

Comia massinha quando era criança, embaixo da mesa de recreação na escolinha. Ninguém nunca soube do meu crime particular. A massa, salgada e insossa, me era deliciosa pelo ritual que ensejava. Sugiro aos leitores que comam uma vez embaixo da mesa para que se revelem nuances secretas de sabores das comidas mais insípidas.

Escrita vã

Escreveu sem nenhuma vontade de se sentar a frente do computador. Saiu uma frase, duas, três... De repente, se viu insatisfeito porque escreveu as mesmas idéias que tem quando se acha inspirado.

Platonismo

Angustiava-se por nunca conseguir saber ao certo a exata medida. Decepcionava-se com a tortuosidade das linhas à medida em que delas se aproximava. Decidiu morrer longe de todos, no cume de um monte, para que a cruz de seu túmulo não mostrasse suas formas minerais irregulares aos que choram ao seu lado. Deixou um poema concretista incompleto.