Escrevo às cinco da manhã. Há alguma esperança da minha matéria continar a se reproduzir na Terra, em incontáveis diplomas, carros e restaurantes, mitose consumista. Eu não leio os jornais quando passo pela banca, mas fito as frestas de luz no seu teto. Um lampejo me azucrina, eu me recomponho. Passeio e minha visão insiste em bailar, mas sobriamente me calo espiando as grutas de uma moça. Escrevo às dez da manhã. O sol sobe, mas já é tarde demais. Já sei o que tenho de fazer, e continuo a adiar, criador de amanhãs que sou. Escrevo ao meio dia. O sábado morreu. A última viscosidade de vida perambula na praça. O sol da cidade dos mortos, as vitrines dos últimos dias. Meu coração insisto em escrevê-lo, mas ele apenas é um coração que limita suas paredes por uma dor que o localiza. Esforço de escrever às quatro horas. Comida, pede o corpo. O chão ainda não foi sentido. Talvez o sinta quando se deitar nele e enfim desistir de continuar nesse dia. Há um amanhã quando os olhos se fecham, as ...
Postagens
Mostrando postagens de setembro, 2007
Massa de modelar
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Comia massinha quando era criança, embaixo da mesa de recreação na escolinha. Ninguém nunca soube do meu crime particular. A massa, salgada e insossa, me era deliciosa pelo ritual que ensejava. Sugiro aos leitores que comam uma vez embaixo da mesa para que se revelem nuances secretas de sabores das comidas mais insípidas.
Platonismo
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Angustiava-se por nunca conseguir saber ao certo a exata medida. Decepcionava-se com a tortuosidade das linhas à medida em que delas se aproximava. Decidiu morrer longe de todos, no cume de um monte, para que a cruz de seu túmulo não mostrasse suas formas minerais irregulares aos que choram ao seu lado. Deixou um poema concretista incompleto.