Escrevo às cinco da manhã. Há alguma esperança da minha matéria continar a se reproduzir na Terra, em incontáveis diplomas, carros e restaurantes, mitose consumista. Eu não leio os jornais quando passo pela banca, mas fito as frestas de luz no seu teto. Um lampejo me azucrina, eu me recomponho. Passeio e minha visão insiste em bailar, mas sobriamente me calo espiando as grutas de uma moça.

Escrevo às dez da manhã. O sol sobe, mas já é tarde demais. Já sei o que tenho de fazer, e continuo a adiar, criador de amanhãs que sou.

Escrevo ao meio dia. O sábado morreu. A última viscosidade de vida perambula na praça. O sol da cidade dos mortos, as vitrines dos últimos dias. Meu coração insisto em escrevê-lo, mas ele apenas é um coração que limita suas paredes por uma dor que o localiza.

Esforço de escrever às quatro horas. Comida, pede o corpo. O chão ainda não foi sentido. Talvez o sinta quando se deitar nele e enfim desistir de continuar nesse dia. Há um amanhã quando os olhos se fecham, as cortinas não escondem nada. Papo de deprimido. Minha vidraça se espatifa.

Seis da tarde, respiro aliviado. Mais um dia sem sobrenome na cova rasa da memória. Mais um epitáfio pedante de Augusto dos Anjos, monumento inacabado ao tédio.

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