Sonho número seis
Era um bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, de inúmeras e remotas épocas que se acumulavam e esmagavam o presente decadente. Os prédios antigos em art noveau, envelhecidos, denegridos, sediaram empresas que hoje apenas são nomes em fachadas ocupadas por mendigos. No meio de uma Avenida, cercado de indigentes sonolentos, eu assistia uma espécie de documentário ao vivo, emitido por uma voz cuja fonte era desconhecida.
A voz dizia a trajetória de um prédio, um galpão, que começou sendo uma empresa elegante no século XIX. Pouco a pouco, a cruel sucessão dos ciclos econômicos ajoelharia a empresa, pedindo clemência para continuar e aceitando serviços cada vez mais singelos, até que só lhe restava a última função de abrigo para lunáticos e mendicantes.
Não me lembro as coisas que esse prédio já fabricou, mas ele estava imerso num cinza urbano que ignora toda a memória de uma cidade. O prédio, desnorteado, resistia bravamente a rachaduras e pichações.
Enquanto toda a história do prédio era narrada por uma voz desconhecida, me admirava o fato de exercer reflexão tão profunda assim estático e ainda não ter sido assaltado por algum trombadinha. Eu e a voz saímos dali, tomamos uma rua suburbana.
Na rua para a qual nos dirigimos não havia prédios, apenas casas, e com um mórbido detalhe. Todas as casas eram na verdade mausoléus, uns requintados, concebidos talvez por um arquiteto, outros mais simples, provavelmente improvisados pelos próprios donos, tal qual uma reforma doméstica realizada somente por pedreiros.
À medida em que o meu carro passava, eu me deparava com as mais diferentes formas de mausoléus e memoriais à morte, porém todos possuíam um toque doméstico, que os tornavam coabitáveis. Sempre passo por essas ruas em meus sonhos, e aqui não seria diferente. No meu mundo onírico, as pessoas moram com os mortos.
Depois da cena recorrente dos mausoléus pitorescos, chego a um cruzamento. Faces conhecidas bebem e comem numa padaria simples de beira de estrada. O cenário ainda é suburbano, as pessoas me reconhecem e acenam assim que eu ponho a cabeça pra fora da janela do carro. Não sou eu quem dirije, mas estranhamente ponho a cabeça pra fora na janela do motorista, como se não tivesse ninguém ao meu lado. As leis da física no mundo onírico permitem todo o qualquer tipo de paradoxo. Talvez os sonhos não sejam regidos pelas leis de Newton, mas sim pela física quântica.
Quando acenava para meus colegas de faculdade (sim, eram eles a comer na padaria), mostrava que estava bem. No sonho eu também sabia que a minha perna estava quebrada. Queria acalmar meus colegas, dizer que estava tudo bem comigo. Naquele simples gesto, reconciliar-me com meu passado recente de ódio aos métodos pedagógicos da medicina. Reconhecer que eu odiava a faculdade, mas não estas pessoas.
O sonho acabou quando tive consciência da vontade de urinar. Acordei na casa da minha tia, ciente da minha fratura, indagando-me onde estaria se nada disso tivesse acontecido. Esse pensamento é recorrente. Cá estou eu, morto que coabita com vivos.
A voz dizia a trajetória de um prédio, um galpão, que começou sendo uma empresa elegante no século XIX. Pouco a pouco, a cruel sucessão dos ciclos econômicos ajoelharia a empresa, pedindo clemência para continuar e aceitando serviços cada vez mais singelos, até que só lhe restava a última função de abrigo para lunáticos e mendicantes.
Não me lembro as coisas que esse prédio já fabricou, mas ele estava imerso num cinza urbano que ignora toda a memória de uma cidade. O prédio, desnorteado, resistia bravamente a rachaduras e pichações.
Enquanto toda a história do prédio era narrada por uma voz desconhecida, me admirava o fato de exercer reflexão tão profunda assim estático e ainda não ter sido assaltado por algum trombadinha. Eu e a voz saímos dali, tomamos uma rua suburbana.
Na rua para a qual nos dirigimos não havia prédios, apenas casas, e com um mórbido detalhe. Todas as casas eram na verdade mausoléus, uns requintados, concebidos talvez por um arquiteto, outros mais simples, provavelmente improvisados pelos próprios donos, tal qual uma reforma doméstica realizada somente por pedreiros.
À medida em que o meu carro passava, eu me deparava com as mais diferentes formas de mausoléus e memoriais à morte, porém todos possuíam um toque doméstico, que os tornavam coabitáveis. Sempre passo por essas ruas em meus sonhos, e aqui não seria diferente. No meu mundo onírico, as pessoas moram com os mortos.
Depois da cena recorrente dos mausoléus pitorescos, chego a um cruzamento. Faces conhecidas bebem e comem numa padaria simples de beira de estrada. O cenário ainda é suburbano, as pessoas me reconhecem e acenam assim que eu ponho a cabeça pra fora da janela do carro. Não sou eu quem dirije, mas estranhamente ponho a cabeça pra fora na janela do motorista, como se não tivesse ninguém ao meu lado. As leis da física no mundo onírico permitem todo o qualquer tipo de paradoxo. Talvez os sonhos não sejam regidos pelas leis de Newton, mas sim pela física quântica.
Quando acenava para meus colegas de faculdade (sim, eram eles a comer na padaria), mostrava que estava bem. No sonho eu também sabia que a minha perna estava quebrada. Queria acalmar meus colegas, dizer que estava tudo bem comigo. Naquele simples gesto, reconciliar-me com meu passado recente de ódio aos métodos pedagógicos da medicina. Reconhecer que eu odiava a faculdade, mas não estas pessoas.
O sonho acabou quando tive consciência da vontade de urinar. Acordei na casa da minha tia, ciente da minha fratura, indagando-me onde estaria se nada disso tivesse acontecido. Esse pensamento é recorrente. Cá estou eu, morto que coabita com vivos.
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