a timidez furta-cor
eu não sei dizer palavras com intenção, elas pulam e pululam em minha boca ulcerada. Elas são mais ou menos o que o poeta quis dizer em mais tempo hábil, em mais consideração ao leitor. Não saberia mais nada além disso, justificar-se em pranto literário desonesto. Outrora havia um escritor mais moço, mais viril, menos valente como hoje. Menos prozac, menos platão, menos sinuoso. Havia um escritor de esqueletos nus, que evisceravam palavras chocantes. Eu não sei, não posso mais calar sonoramente como antes. E o falar se esvai, fraco como um tambor no meio de uma orquestra. Tímido como sou, o prazer é calar perante o escândalo. O meu maior gozo hoje é me esconder e me envergonhar dos delitos que não cometi.