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Mostrando postagens de agosto, 2010

a timidez furta-cor

eu não sei dizer palavras com intenção, elas pulam e pululam em minha boca ulcerada. Elas são mais ou menos o que o poeta quis dizer em mais tempo hábil, em mais consideração ao leitor. Não saberia mais nada além disso, justificar-se em pranto literário desonesto. Outrora havia um escritor mais moço, mais viril, menos valente como hoje. Menos prozac, menos platão, menos sinuoso. Havia um escritor de esqueletos nus, que evisceravam palavras chocantes. Eu não sei, não posso mais calar sonoramente como antes. E o falar se esvai, fraco como um tambor no meio de uma orquestra. Tímido como sou, o prazer é calar perante o escândalo. O meu maior gozo hoje é me esconder e me envergonhar dos delitos que não cometi.

As cinco solidões do imperador amarelo.

há dois anos atrás, haviam pequenas ilusões que ainda não tinham sido destruídas. Elas ocupavam pixels do meu rosto, ali, entre a glabela e o queixo. Os lençóis testemunham o primeiro esquecimento do dia, e com eles vão juntas essas coisas tortas que criei. A cada dia mais, as ilusões desabam do meu rosto e se perdem no esquecimento das noites. O que é a morte senão o desejo de se libertar de uma existência pútrida e incolor? Eu realizo e caminho, mas a fome desampara e riste ao chão, minha cabeça desmaia. Caio, levanto, caio novamente, sorvo o amargo de uma existência senil, olho ao redor, só me vejo sempre, caiado entre quatro paredes de carne. Há cinco solidões. Aquela dos corajosos, aquela dos ousados, aquela dos meditabundos, aquela dos tristes, aquela dos medrosos. Ainda não me situo direito entre todas elas. A vida passa como um esbarrão na Carioca. Você se machuca e não sabe do que foi.