Dos seres de papel
As histórias da minha mãe são povoadas de seres obscuros, daqueles cujas vidas e mortes são rememoradas apenas por pessoas num raio de 3 quilômetros de onde estes seres viviam, e numa cidade que não existe mais. Na verdade, Itaguaí ainda existe, mas sabemos que cidade alguma nunca mais será a mesma.
Você já parou para pensar que milhões de seres humanos passam pela Terra sem deixar rastro na sua superfície? Os metais, que registram placas de homenagens, saudações, recordações, não os mencionam. E cada dia mais, percebo que os homens que forjam seus nomes no metal assim o fazem pela sua dureza, sendo esta muitas vezes um instrumento da tirania e da psicopatia destes.
Os doces, medíocres, bons e resignados são como feitos de um material frágil, incapaz de arranhar superfícies. Esses homens poderiam ser chamados de 'homens de papel'. Não que eles tivessem ideias brilhantes, ao contrário. É que esses homens deixam a vida e o único registro que temos dele estão em papéis, que também hão de se desmancharem como suas carcaças. Certidões de nascimento e óbitos e prontuários médicos.
Alguns desses homens, talvez impelidos pelo que seria uma sabedoria instintiva e mordaz, registram seus filhos com os nomes mais bizarros, como se soubessem que só os nomes lhes restarão após a vida.
Você será, aos olhos de um arquivista, um mero conjunto de sílabas pronunciadas numa ordem geralmente única que, caso seja similar a de outro, deverá ser checada com o nome dos progenitores, um exercício que não durará mais que um minuto. Eis a sua individualidade: Um nome numa folha de papel e nada mais.
Fico assombrado com a possibilidade de que certos fenômenos culturais, recordações e pessoas se percam no desmanche do tempo. Mas os homens são de papel, na sua maioria. Senão haveriam estátuas e bustos demais a povoarem as praças.
Às vezes eu gostaria de selecionar ao acaso um desses homens e estudar a vida deles, movido de íntima compaixão pela sua insignificância. Será Deus assim?
Ao mesmo tempo, fascino-me com a doçura do esconderijo desses seres obscuros. A maioria deles foram amados por alguém nalgum momento de suas vidas. E todos os obscuros se amando, viviam um dia após o outro sem se preocuparem com o esquecimento que haveria de chaciná-los.
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