Do vazio

O corpo é sábio. Só gasta energia se houver trabalho a ser feito pela mente. Caso contrário, entra num estado de torpor tal onde só resta a mim a posição de decúbito e suas variações.

Vivo um momento assim. Sinto-me vazio e solitário; sinto meu trabalho cada vez mais pesado e insuportável; agradeço ao acaso quando não me deparo com pessoas para atender; quero apenas repousar.

Não sinto prazer algum no que faço. Sabe lá como arranjei energia para escrever essas linhas. Noutra ocasião, elas seriam consideradas feias demais para serem publicadas.

Estou tão insensível ao meu preciosismo literário quanto à concepções vagas de sucesso e ambição cabíveis a uma pessoa da minha idade. Enquanto vejo pessoas se sacrificando ficando surdas a si mesmas, estou tão letárgico que qualquer voz que me norteie é apagada como um risco na areia do mar.

Na verdade, agora só quero passar uma tarde de sol na penumbra fria de um quarto limpo ouvindo Chico Buarque até dormir e pensando nos amores que nunca tive. Nesse momento, estou num plantão, com bastante sono porém receoso de me deitar e ser logo chamado para atender um paciente.

Este parágrafo me ocorre depois de quase me debruçar diante do monitor.

Comentários

Cheshire Cat disse…
E eu já te observava por aqui faz tempo... um amor que você não tinha, e agora, tem.

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