queria ser um aquivista
Certo dia, tive de ir ao Arquivo da Universidade onde estudei, com o intuito de coletar algumas informações para uma pesquisa da história da faculdade de medicina. Foi lá que me deparei com a figura do arquivista.
Era um homem de óculos grossos, baixo, pouco volume no tórax e talvez homossexual enrustido, mas não era isso que me atraiu nele. De fato, toda a descrição foi necessária para mostrar que talvez esse homem pequeno encontrasse refúgio para seus conflitos lá.
Entre dezenas de estantes abarrotadas de arquivos que nunca mais serão abertos, circulava uma brisa lenta e fria, nunca antes aquecida pela umidade e calor dos corpos de funcionários tagarelas.
Por quanto tempo esse homem ficara calado durante o dia? Receio que por horas, afinal ele titubeou quando conversava conosco, demonstrando total falta do exercício da loquacidade.
À época em que visitei o arquivo, era jovem, tinha mais amigos do que hoje e uma vida feliz, mas devo confessar que senti imenso apreço por aquele lugar. Não por conter em si a história de uma instituição de ensino, mas pela oportunidade de silenciar os ruídos externos e, quem sabe, simetricamente, calar os internos.
Os ruídos internos não me interessam, pois agora sou invadido pelo desejo de estar naquele arquivo novamente, mas de um modo permanente. Não sei o porquê, mas estou num momento da minha vida em que o desejo de repousar é cada vez maior. Talvez esteja fugindo da realidade, ou talvez seja apenas cansaço. Não à toa que quero ser um arquivista.
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