Senilidade
Eu não gosto nem desgosto de idosos. Antes deles serem idosos, são seres humanos, com suas respectivas idiossincrasias. Eu gosto ou desgosto é de pessoas.
Psicopatas e pessoas nobres envelhecem do mesmo jeito (isto é, se o psicopata sobreviver às consequências dos seus atos), e há um ditado que circula, à boca miúda, de que o velho diante dos seus olhos, debilitado, pode ser um filho da puta que envelheceu. Isso explicaria (embora não seja uma justificativa) o fato de muitos idosos serem abandonados por aí.
Além de não ter nenhuma raiva ou preconceito contra a senilidade, eu tento fazer um exercício mental para preservar o meu respeito a eles. Eu penso que um dia envelhecerei. Esse exercício é fundamental numa rotina onde eu sou obrigado a atender centenas de idosos por semana, num plantão de emergência. Muitas vezes, eu vejo que os idosos são levados desnecessariamente ao pronto socorro. Ter algum pensamento disciplinador é fundamental porque muitas vezes eu me deparo com um sentimento de raiva por ter de atender tanta gente.
Quando isso acontece, eu preciso deixar bem claro a mim mesmo de que estou com raiva do estresse do plantão, e não dos idosos e dos adultos. Esse é um raciocínio importantíssimo para que eu mantenha o meu respeito a eles. Um dia, escreverei mais sobre o trabalho de Sísifo que se tornou as emergências brasileiras.
Os idosos frequentam mais os serviços de saúde por duas razões: a saúde entra em declínio na maioria dos casos. Além disso, o medo da morte faz qualquer sintoma parecer o arauto do último suspiro. Essa última razão não é tão fantasiosa, haja visto os casos de velhos que ignoram seus sintomas e muitas vezes morrem sem fazer alarde. Lembro-me de vários casos assim.
Não sei, exatamente, explicar essa auto-negligência que costuma redundar em morte. Eu diria que ela é ambivalente: em muitos casos, o idoso adere ao que seria o conceito psicanalítico da pulsão de morte, e anseia pelo descanso eterno, o que se traduz em negligência ao seu corpo. Noutros casos, a pessoa se "objetaliza" e aceitar ficar aos cuidados de um cuidador, geralmente um dos seus filhos. Essa segunda opção é muito frequente.
É impressionante o número de velhos que atendo, acompanhados dos seus parentes, que não apresentam nenhum problema em sua fala ou em sua cognição e que, a despeito disso, deixam que o acompanhante fale o que está se passando com ele. Ora, se ele é um ser pensante, adulto, e está lúcido, o que mudou? A idade traz uma fragilidade inerente que provoca nele a sensação de que merece cuidados e a conclusão, muitas vezes errônea, de que deve deixar de cuidar de si.
Dentro de mim e de qualquer adulto, há uma criança que se irrita facilmente. Essa criança precisa do maior cuidado possível, para que não apronte as suas por aí. Em outras palavras, falta de civilidade. Antes de achar que esse lado imaturo é feio, é preciso refletir que ele existe e não pode ser ignorado, devendo ser extravasado em ocasiões oportunas. Porque dentro de mim também há um idoso, que sairá.
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