Postagens

Mostrando postagens de janeiro, 2007

a vaidade no congresso da alma.

Viu uma figura, e queria tirar um sentido dela, mas pensou que só tinha criatividade o bastante para criar dentro dos limites quadrados da imagem. Via um homem escalando uma montanha, um livro e um par de chinelas, odiosa combinação do exercício da criatividade. Queria escrever dois e dois são quatro, mas havia um concurso para se mostrar original. Dentro de si já havia o germe da vaidade, ele apenas encontrou um modo de expressar sua vil ambição em algum pretexto, a fim de criticá-lo e não assumir essa porção revoltante de si, frente ao partido que era maioria no congresso da alma.

alfabeto

Quem escreve, sugere ao outro o que a gramática impõe. Somos obedientes ao tom silencioso de nossa alfabetização. Calado, ouço as vozes de muitas águas na leitura de cada sílaba. Uma vez queria escrever um jota, mas ler um efe, no entanto não consegui. Pensei, iludido, que a vida seria um texto a ser lido, que a leríamos segundo as regras de uma gramática celestial. À medida em que vivia, analfabetizava-se.

Política

Ocasionalmente, entrava naquele carroussel de adultos, mas enjoava. Os adultos que brincavam chamavam as pessoas fora do brinquedo de alienados. Já era a terceira ou quarta vez que via o parquinho ser pintado de um verniz diferente, e os participantes da brincadeira insistiam em sentar e segurar nos cavalinhos com a tinta fresca, não se importavam de ver as cores anteriores e davam risos histriônicos, cantando cirandas de Marx e Engels.

Coltrane

Porque sempre é bom ter algo que não se ouviu Assim posterga-se a utopia num disco de Coltrane

Córdoba

Um dia pensou em amar uma mulher de Córdoba. Não sabia onde ficava, mas imaginava cabelos pretos e lisos numa praça de luz mercúrio. Ele sabe como gozar com a dor de nunca conseguir. Um dia desejou uma mulher de Córdoba, e nunca a viu.

os engenheiros

Águas descem ao cano e não são mais avistadas. Confia-se no engenheiro das tubulações. O engenheiro de tubulações tem de cor a planta dos canos, nenhum vazamento registrado. Confia-se nos processadores de esgoto. Os processadores de esgoto analisam, fluoretam e redistribuem a água. Confia-se nos engenheiros do emissário submarino. Os engenheiros do emissário submarino confiam nalguma lei da natureza que os garante a renovação do esgoto em águas oceânicas. Um dia os canos estouram, as pias vazam merda e os engenheiros estão a dormir. As praias continuam sujas.

amormancia

Começa sem fazer muitos predicados. O tema é retratado desde a Grécia Clássica. Salomão o escreveu, e na época comparar mulheres a belas vacas era elegante. Descreve o amor, mas com o menor descuido cairá num poço de clichês. Caiu. Já via as citações de flores, cor-de-rosa, lareiras, fogos de artifício e espumante. Via as bebedices, as penúrias do abandono. Kisch kisch kisch. Seu peito abriu-se generosamente a frases descompassadas de Gershwin, Andrew Lloyd Weber e Djavan. Justificou a falta de rigor por estar embriagado de um certo livor amoroso. Deixou de lado o cientista, a astrologia, a lógica cartesiana, e mergulhou. Só queria os fluídos e o esforço do gozo, a boca, o cheiro e as ferramentas para repetir isso ad eternum . Presença e toque. O cheiro acre das secreções femininas proporcionava-lhe uma gélida sensação na barriga, quentura no peito, e o resto do corpo era percorrido pela consciência, focalizada ora no pênis, ora na nádega direita, ora no pé. A seguir, dizia coisas das ...