Mirna

Filha de um historiador comunista e de uma escritora francesa, Mirna era a típica mistura que poderia ser encontrada numa cidade cosmopolita como São Paulo ou Rio de Janeiro.

Fumava Lucky Strike e era paradoxal. Dentro de si, conseguia conviver o comunismo bolchevique e o consumismo norte-americano. Marx, Stalin, Stainless Steel, Trotsky, Triton.

Frases de Gramsci eram misturadas com pitadas de Foucault e risíveis citações de Quem mexeu no meu queijo, que ela lia só pra rir e fazer piadinhas entre suas amigas Daniela, Vanessa e Morgana. Esse era o prelúdio da noite. Mirna precipitava o sexo jogando um arsenal intelectual pujante nos seus homens. Eles tinham que gostar de conversar sobre tudo, inclusive do seu hábito de fumar. E o cigarro, é claro, recebia dela a piada freudiana de que "a fumaça preenchia o espaço do pai ausente".

Frequentava a Lapa e gostava do cheiro de cigarro, canela e maconha que permeava as ruelas. Quando roçava nas pessoas na boate lotada, ela se excitava um pouco. Alguns amigos viam seus seios em botão nesse momento. Alguns zombavam, outros escondiam essa idéia para se masturbar ou descarregar a tensão dessa cena nalguma menina que conhecessem durante a noite. Eu fico me perguntando quantas vezes os amigos de Mirna imaginam o número de vezes que sua vagina molha durante o dia ao ver homens, mulheres e casais na rua. Os homens pensam que as mulheres são uma máquina de excitação, mas as mulheres se defendem dizendo que isso é projeção do próprio tesão deles. Mirna, coitada, é vítima do mesmo pensamento.

A casa dela fica na Glória, com quadros pintados por ela mesma na sala, além de lembrancinhas das viagens que fez com sua família ou o mochilão de Amsterdam. Não sei porque disse isso. Acho que foi só pra mostrar que Mirna é típica. Ela ainda tem a ousadia de ostentar uma vitrola que toca Jorge Ben. Veja bem, é Jorge Ben, e não Jorge Ben Jor. Isso é importante.

Se voce quer conhece-la, take it easy my brother charles. Acho que vou parar de escrever.

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