Tédio
O tédio é constituído de poucas coisas porque, se fossem muitas, não seria tédio. São pequenos movimentos, com nada de novo. Esse é o disparo de uma coisa que sobe da barriga e invade o peito. Um vazio se movimenta nas visceras, uma lufada de ar, e o suspiro do tédio.
Faça palavras cruzadas - ela disse. Ele fez. Talvez assim durma.
Era tão invariável que sempre visitava os mesmos sites, ia aos mesmos lugares e comia as mesmas comidas. Não conseguia sair de sua redoma entediante. Tratava-se do maior tédio que uma pessoa poderia criar para si. Não podia reclamar, pois toda e qualquer variação dependia dele, e não de um delegado ou carcereiro. Acho que ele mesmo se trancou e jogou a chave fora. Se fosse culpado de um crime, a melhor sentença que poderia receber era continuar a viver, dada a entediante penitenciária quotidiana que criara para si.
Ah - uma coisa que me faltou - ele pensava nas mesmas mulheres sempre. Era tão fixo que não conseguia mudar de inspiração nas suas masturbações. Lembrava-se das mesmas mulheres, nas mesmas cenas, apetrechos e posições. Seu gozo era exatamente o mesmo, e ele o limpava da mesma forma há anos. A única coisa que tentava variar eram as posições sexuais com sua mulher, mas isso não era nenhuma novidade. Todos os homens se preocupam com isso, e todos acabam sendo entediantemente variados para suas amantes. Após dois ou tres dias de sexo com sua mulher, as posições se repetiam, e ele assim construía para si seu Kama Sutra reprisado.
Ele saberia que haveria de morrer um dia. Isso seria uma variação da rotina, assim como há eventualidades que nos tiram do eixo. A morte seria uma dessas eventualidades, mas subitamente um medo o invadiu. Passou a temer a sua morte no quotidiano. A visão de morrer enquanto caminhava da cozinha para sala, ou enquanto pedia o mesmo capuccino, na mesma cafeteria toda a quinta feira, passou a lhe incomodar. Durante a invasão dessa idéia fixa, tinha pena de si mesmo.
O que fazer? Um tour pela América do Sul a fim de morrer em Machu Pichu? E como ele saberia a data da sua morte? Astrologia? Mediunidade? Preferiu continuar no catolicismo, onde estava desde a infancia. Mais uma vez, ele se repetiu sem ao menos desconfiar.
Como poderia morrer em paz e contrariar seu medo atual? A solução que encontrou foi falar dos seus pensamentos com a psicanalista, como fazia há vinte anos.
Faça palavras cruzadas - ela disse. Ele fez. Talvez assim durma.
Era tão invariável que sempre visitava os mesmos sites, ia aos mesmos lugares e comia as mesmas comidas. Não conseguia sair de sua redoma entediante. Tratava-se do maior tédio que uma pessoa poderia criar para si. Não podia reclamar, pois toda e qualquer variação dependia dele, e não de um delegado ou carcereiro. Acho que ele mesmo se trancou e jogou a chave fora. Se fosse culpado de um crime, a melhor sentença que poderia receber era continuar a viver, dada a entediante penitenciária quotidiana que criara para si.
Ah - uma coisa que me faltou - ele pensava nas mesmas mulheres sempre. Era tão fixo que não conseguia mudar de inspiração nas suas masturbações. Lembrava-se das mesmas mulheres, nas mesmas cenas, apetrechos e posições. Seu gozo era exatamente o mesmo, e ele o limpava da mesma forma há anos. A única coisa que tentava variar eram as posições sexuais com sua mulher, mas isso não era nenhuma novidade. Todos os homens se preocupam com isso, e todos acabam sendo entediantemente variados para suas amantes. Após dois ou tres dias de sexo com sua mulher, as posições se repetiam, e ele assim construía para si seu Kama Sutra reprisado.
Ele saberia que haveria de morrer um dia. Isso seria uma variação da rotina, assim como há eventualidades que nos tiram do eixo. A morte seria uma dessas eventualidades, mas subitamente um medo o invadiu. Passou a temer a sua morte no quotidiano. A visão de morrer enquanto caminhava da cozinha para sala, ou enquanto pedia o mesmo capuccino, na mesma cafeteria toda a quinta feira, passou a lhe incomodar. Durante a invasão dessa idéia fixa, tinha pena de si mesmo.
O que fazer? Um tour pela América do Sul a fim de morrer em Machu Pichu? E como ele saberia a data da sua morte? Astrologia? Mediunidade? Preferiu continuar no catolicismo, onde estava desde a infancia. Mais uma vez, ele se repetiu sem ao menos desconfiar.
Como poderia morrer em paz e contrariar seu medo atual? A solução que encontrou foi falar dos seus pensamentos com a psicanalista, como fazia há vinte anos.
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