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Mostrando postagens de 2008

menor metade.

Em algum lugar de um passado recente, um garoto tomou uma decisão mas se partiu ao meio. Um pedaço é o inteiro anterior, e vive sua vida de sempre. O outro pedaço está por aí, nas visões do inteiro quando ele pára. Ele parou num canto de um hospital e viu a metade menor vagando entre paredes sem cimento, quando um vento frio aterrissava naquele subúrbio. Ele viu a metade estática, fazendo o que sempre lhe deu prazer. Ele viu a metade menor em campos verdes, enquanto espiava da janela de um ônibus as paragens onde nunca passeou antes. Lá estava a metade no meio da pastagem, no meio do Brasil. Ele viu a metade menor em cantos escuros da sua sala de estar, no momento em que desejou ficar ao invés de se levantar e fazer seu trabalho entediante costumeiro. Cada vez que deixava sua metade nesses cantos, campos e coisas, partia outra metade em si sem sabê-lo.

a curva e a reta.

Um apresentador de um programa de rock para adolescentes tinha o costume de se embriagar, cheirar cocaína e logo em seguida ser espancado e penetrado por um séquito sadomasoquista anônimo. Sempre terminava essas noites na sarjeta, sem uma de suas próteses dentárias dos incisivos e ao lado de um mendigo. Um dia, o principal anunciante comercial do apresentador decidiu, obedecendo a uma cláusula contratual, rescindir o contrato milionário que tinha com ele. Após dois anos de acúmulos de dívidas, perdas de imóveis e aumento da demanda de cocaína, o apresentador perdeu tudo. E o mendigo continuou na sarjeta.
Vou passar o resto dos meus dias desse momento a dormir, a levantar, a comer e a ver as luzes solares entrando pela janela a tarde.

O maior por-do-sol do mundo.

Vivo a maior tarde da minha vida. Espero o sol morno se por, mas ele não desce. Quando essa tarde acabar, chorarei as dores típicas do infiel. Um mormaço religioso paira sobre mim, a despeito do belíssimo por-de-sol que projeta através das janelas telas de uma utopia do instante em Technicolor. São as agruras de um parto que insiste em se trabalhar dentro de mim, esse miasma cristão que insiste em me infectar. O por do sol é uma das coisas mais tristes que o homem criou a imagem e semelhança de Deus. Com a graça de Deus, renovam-se as esperanças de uma boa morte. Quando essa tarde acabar Espera o trem fumegar Espera o sino luzir Com a luz do Sol vermelho é tudo tão belo o dia está bom pra morrer e sorrir. Minha mão tem um sinal que fala de outra vida que não a minha em outro lugar. O corte da mão corta meu coração e o coração do escorpião. A via da dor é o caminho da combustão.
Esses dias assopram rasteiros. Tem um cheiro de brisa. Caminho lentamente e penso que sou velho. Escrevo a última frase e vou dormir.

Mirna

Filha de um historiador comunista e de uma escritora francesa, Mirna era a típica mistura que poderia ser encontrada numa cidade cosmopolita como São Paulo ou Rio de Janeiro. Fumava Lucky Strike e era paradoxal. Dentro de si, conseguia conviver o comunismo bolchevique e o consumismo norte-americano. Marx, Stalin, Stainless Steel, Trotsky, Triton. Frases de Gramsci eram misturadas com pitadas de Foucault e risíveis citações de Quem mexeu no meu queijo, que ela lia só pra rir e fazer piadinhas entre suas amigas Daniela, Vanessa e Morgana. Esse era o prelúdio da noite. Mirna precipitava o sexo jogando um arsenal intelectual pujante nos seus homens. Eles tinham que gostar de conversar sobre tudo, inclusive do seu hábito de fumar. E o cigarro, é claro, recebia dela a piada freudiana de que "a fumaça preenchia o espaço do pai ausente". Frequentava a Lapa e gostava do cheiro de cigarro, canela e maconha que permeava as ruelas. Quando roçava nas pessoas na boate lotada, ela se excita...

Tédio

O tédio é constituído de poucas coisas porque, se fossem muitas, não seria tédio. São pequenos movimentos, com nada de novo. Esse é o disparo de uma coisa que sobe da barriga e invade o peito. Um vazio se movimenta nas visceras, uma lufada de ar, e o suspiro do tédio. Faça palavras cruzadas - ela disse. Ele fez. Talvez assim durma. Era tão invariável que sempre visitava os mesmos sites, ia aos mesmos lugares e comia as mesmas comidas. Não conseguia sair de sua redoma entediante. Tratava-se do maior tédio que uma pessoa poderia criar para si. Não podia reclamar, pois toda e qualquer variação dependia dele, e não de um delegado ou carcereiro. Acho que ele mesmo se trancou e jogou a chave fora. Se fosse culpado de um crime, a melhor sentença que poderia receber era continuar a viver, dada a entediante penitenciária quotidiana que criara para si. Ah - uma coisa que me faltou - ele pensava nas mesmas mulheres sempre. Era tão fixo que não conseguia mudar de inspiração nas suas masturbações. ...

Deus

Não tenho medo de Deus. Ele sorri para mim quando conversamos. Não precisa espalhar, mas acho que Ele não está nem aí pra toda a abstinencia dos Cristãos. Seu sorriso é no fundo um pouco sarcástico. Um sorriso que ao mesmo tempo ri das coisas e se pergunta: para que tudo isso? Para mim? A minha Lei é tão simples... Jovens que tem culpa até de se masturbar; mulheres que tem vergonha de fazer sexo oral com seus maridos; homens que tem vergonha de beber um cálice de vinho; um adolescente que se sente culpado por gostar de rock. Eu falo de coisas que parecem de um texto da década de sessenta, mas muitos ainda se preocupam com essas questões em pleno 2008. Eu passei por tudo isso me ferindo um pouco, mas no alto dos meus poucos 25 anos olho para Deus e ele ri. Não preciso me transformar num ateu para não ter vergonha do meu desejo, e Deus ve que isso é bom.