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manifesto de retomada.

Esse blogue era para ser um diário, mas acabou se tornando mais um blogue de poesias que ninguém lê; uma catarse idílica. Quero retomar a proposta inicial e tornâ-lo um diário, despreocupado com a forma e o conteúdo. Porque enquanto mais um diário dentre os milhares que povoam a blogosfera, será mais reconfortante para minha'lma que escrever poesia e ficar preocupado com métrica, forma, rimas. Afinal de contas, em prosa ou poesia, tudo são apenas solilóquios.

o deus desconhecido

os versos sombrios foram lidos pelo pastor das almas. O pastor das almas conjecturou ao perdido? Esta voz é o Espírito Santo a lhe consolar o deus desconhecido de Paulo em Atenas. Os gregos tinham tantos deuses que adoravam até o deus que desconheciam e Paulo disse a eles que tal Deus era o Deus que enviou o Filho Eu não sei se a voz seria o Deus que enviou o Filho Embora pudores mil ainda me impeçam de questionar o que o pastor disse A voz não me dissuadira de modo algum E continuo tácito à beira do abismo.

Dos seres abissais

Essas criaturas horrendas De mil dentes e olhos brilhantes Invadem os sonhos mais secretos Após olhar o abismo, eu as vi Saltitando entre um vazio e outro Devorando lufadas de ar, os seres famintos clamavam minha alma suicida Mas a voz, essa mesma voz que o abismo me mostrara Novamente a me sussurar, revelou-se Tais seres não comem. Acaso queres pular?

Abismo

Não sei dizer o que sinto Mas não dou um passo adiante Tampouco retrocedo. Pensamento que não se move Uma vertigem invade meu peito. Sinto a mão em meu ombro E um sussurro amigo: Estás a sentir o abismo. Como pude não ver diante de mim Esse acidente da natureza Decerto que a cegueira imperceptível Se instalara tão lentamente Desde tempos imemoriáveis. Quando ouvi essa voz, minhas retinas cansadas se curaram E o abismo que estava diante de mim se mostrou vil e largo. Não há pedras para construir pontes E o abismo não tem fundo

tarde

Já é tarde na vida. O sol brilha mas é débil. A Lua se prenuncia. As estrelas zombam da queda solar. Os jardins não estão mais tão bonitos. As sombras permeiam as réstias de sol. Os recantos se tornam mais escuros. Os vales mais profundos. Os rios se confundem com as planícies. Os fogos medíocres ascendem. Já é tarde. O amor. A chama. O tédio. A constipação. Já é tarde. Os carros cheios de semblantes cansados. A música repete na rádio. A memória fica mais fugidia. Olho repetidamente para dentro de mim e habituo-me comigo mesmo. Entardeço.

Do vazio

O corpo é sábio. Só gasta energia se houver trabalho a ser feito pela mente. Caso contrário, entra num estado de torpor tal onde só resta a mim a posição de decúbito e suas variações. Vivo um momento assim. Sinto-me vazio e solitário; sinto meu trabalho cada vez mais pesado e insuportável; agradeço ao acaso quando não me deparo com pessoas para atender; quero apenas repousar. Não sinto prazer algum no que faço. Sabe lá como arranjei energia para escrever essas linhas. Noutra ocasião, elas seriam consideradas feias demais para serem publicadas. Estou tão insensível ao meu preciosismo literário quanto à concepções vagas de sucesso e ambição cabíveis a uma pessoa da minha idade. Enquanto vejo pessoas se sacrificando ficando surdas a si mesmas, estou tão letárgico que qualquer voz que me norteie é apagada como um risco na areia do mar. Na verdade, agora só quero passar uma tarde de sol na penumbra fria de um quarto limpo ouvindo Chico Buarque até dormir e pensando nos amores que nunca tiv...

Dos seres de papel

As histórias da minha mãe são povoadas de seres obscuros, daqueles cujas vidas e mortes são rememoradas apenas por pessoas num raio de 3 quilômetros de onde estes seres viviam, e numa cidade que não existe mais. Na verdade, Itaguaí ainda existe, mas sabemos que cidade alguma nunca mais será a mesma. Você já parou para pensar que milhões de seres humanos passam pela Terra sem deixar rastro na sua superfície? Os metais, que registram placas de homenagens, saudações, recordações, não os mencionam. E cada dia mais, percebo que os homens que forjam seus nomes no metal assim o fazem pela sua dureza, sendo esta muitas vezes um instrumento da tirania e da psicopatia destes. Os doces, medíocres, bons e resignados são como feitos de um material frágil, incapaz de arranhar superfícies. Esses homens poderiam ser chamados de 'homens de papel'. Não que eles tivessem ideias brilhantes, ao contrário. É que esses homens deixam a vida e o único registro que temos dele estão em papéis, que tamb...

Sobre estar a todo o tempo conectado

Era uma vez um menino que tinha dúvidas, e as escrevia numa enorme parede, na qual todo o mundo pudesse ver. Eventualmente, ele queria apenas reclamar, sem resolver os problemas, e para tal escrevia. Qual não era a sua surpresa, quando subitamente vozes irrompiam no mesmo muro, escritas de mãos desconhecidas, sugerindo resoluções. O menino se aborrecia. "Eu quero alguém apenas para me ouvir", dizia o vate pueril de reclames.