Sonho número seis
Era um bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, de inúmeras e remotas épocas que se acumulavam e esmagavam o presente decadente. Os prédios antigos em art noveau, envelhecidos, denegridos, sediaram empresas que hoje apenas são nomes em fachadas ocupadas por mendigos. No meio de uma Avenida, cercado de indigentes sonolentos, eu assistia uma espécie de documentário ao vivo, emitido por uma voz cuja fonte era desconhecida. A voz dizia a trajetória de um prédio, um galpão, que começou sendo uma empresa elegante no século XIX. Pouco a pouco, a cruel sucessão dos ciclos econômicos ajoelharia a empresa, pedindo clemência para continuar e aceitando serviços cada vez mais singelos, até que só lhe restava a última função de abrigo para lunáticos e mendicantes. Não me lembro as coisas que esse prédio já fabricou, mas ele estava imerso num cinza urbano que ignora toda a memória de uma cidade. O prédio, desnorteado, resistia bravamente a rachaduras e pichações. Enquanto toda a história do prédio era...