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Mostrando postagens de 2007

Sonho número seis

Era um bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, de inúmeras e remotas épocas que se acumulavam e esmagavam o presente decadente. Os prédios antigos em art noveau, envelhecidos, denegridos, sediaram empresas que hoje apenas são nomes em fachadas ocupadas por mendigos. No meio de uma Avenida, cercado de indigentes sonolentos, eu assistia uma espécie de documentário ao vivo, emitido por uma voz cuja fonte era desconhecida. A voz dizia a trajetória de um prédio, um galpão, que começou sendo uma empresa elegante no século XIX. Pouco a pouco, a cruel sucessão dos ciclos econômicos ajoelharia a empresa, pedindo clemência para continuar e aceitando serviços cada vez mais singelos, até que só lhe restava a última função de abrigo para lunáticos e mendicantes. Não me lembro as coisas que esse prédio já fabricou, mas ele estava imerso num cinza urbano que ignora toda a memória de uma cidade. O prédio, desnorteado, resistia bravamente a rachaduras e pichações. Enquanto toda a história do prédio era...

os tataranetos dos insetos impassíveis

Eu passei pela bifurcação e senti saudade de um tempo que não vivi. ali passava o trem, e crianças brincavam ao redor das linhas ainda funcionantes. Quando um trem se aproximava, era como os passos de um monstro feroz, e a barriga gelava. Repetidamente as negrinhas faziam isso. Colocavam as orelhas nos trilhos, a esperar as pegadas sonoras do gigante. Às vezes viam pequenas joaninhas ou outros artrópodos asquerosos abaixo dos trilhos. Esses insetos incognoscíveis resistiam a todos os impactos do trem. Como coisas tão insignificantes podem sobreviver ao imperativo da passagem de um trem? Às vezes eu me pergunto isso, mas receio que as pessoas achem essa pergunta óbvia... Desde que fiz a minha primeira pergunta óbvia, eu tive medo de ser censurado por pessoas sérias, que não tem tempo a perder. Eu crio dúvidas que todos já sabem a resposta. Não serei eu quem mostrará às pessoas que nem sempre as respostas estão corretas. Eu também não sou nenhum dono de respostas, mas pelo menos aprendi ...
Escrevo às cinco da manhã. Há alguma esperança da minha matéria continar a se reproduzir na Terra, em incontáveis diplomas, carros e restaurantes, mitose consumista. Eu não leio os jornais quando passo pela banca, mas fito as frestas de luz no seu teto. Um lampejo me azucrina, eu me recomponho. Passeio e minha visão insiste em bailar, mas sobriamente me calo espiando as grutas de uma moça. Escrevo às dez da manhã. O sol sobe, mas já é tarde demais. Já sei o que tenho de fazer, e continuo a adiar, criador de amanhãs que sou. Escrevo ao meio dia. O sábado morreu. A última viscosidade de vida perambula na praça. O sol da cidade dos mortos, as vitrines dos últimos dias. Meu coração insisto em escrevê-lo, mas ele apenas é um coração que limita suas paredes por uma dor que o localiza. Esforço de escrever às quatro horas. Comida, pede o corpo. O chão ainda não foi sentido. Talvez o sinta quando se deitar nele e enfim desistir de continuar nesse dia. Há um amanhã quando os olhos se fecham, as ...

itinerário da libido - 1

a devassidão não tem rosto. na face angelical encarna o gozo perverso. sobe das entranhas invisíveis e queima os rostos de um pavor libidinoso.

espiões do mal - primeira parte.

Era uma pessoa com intenções terríveis. Ao invés de criar uma ditadura para promover sua ideologia macabra e preconceituosa, virou humorista. E dos bons.

Massa de modelar

Comia massinha quando era criança, embaixo da mesa de recreação na escolinha. Ninguém nunca soube do meu crime particular. A massa, salgada e insossa, me era deliciosa pelo ritual que ensejava. Sugiro aos leitores que comam uma vez embaixo da mesa para que se revelem nuances secretas de sabores das comidas mais insípidas.

Escrita vã

Escreveu sem nenhuma vontade de se sentar a frente do computador. Saiu uma frase, duas, três... De repente, se viu insatisfeito porque escreveu as mesmas idéias que tem quando se acha inspirado.

Platonismo

Angustiava-se por nunca conseguir saber ao certo a exata medida. Decepcionava-se com a tortuosidade das linhas à medida em que delas se aproximava. Decidiu morrer longe de todos, no cume de um monte, para que a cruz de seu túmulo não mostrasse suas formas minerais irregulares aos que choram ao seu lado. Deixou um poema concretista incompleto.

Astrologia Horária Árabe

Texto em Espanhol com insights interessantes obtidos do estudo de autores árabes. 020143.pdf

Ptolomeu - sobre os irmãos

A intepretação dos irmãos, segundo Ptolomeu. Sobre irmãos e irmãs.doc

a filha fiel

Quando vinha a sua cabeça algum julgamento correto de si mesmo, era sempre sem afeto. Uma frase, como dita pelo psicanalista ortodoxo, vinha à sua cabeça, ríspida como quem quer terminar uma consulta: "Você assim o faz, mas não quer". Era dele, com certeza, mas a ignorava como um filho que sempre diz a verdade mas o pai o rejeita. Preferia os pensamentos imbuídos de emoção, altivos e magistrais, nos quais poderia confiar a vida um pendor missionário e se livrar do abismo caótico no qual fingia não estar. Mas doía-lhe o peito. E continuava a se fiar nessas idéias, certo de que elas eram verdadeiras, tamanho o impacto que causavam em seu peito. Queria viver nesse constante estado de angina espiritual. Até que um dia, sem entender direito, chorou compulsivamente com uma idéia infantil em sua cama, mas a criança a época lhe fugiu, apenas ficando as idéias obesas grandiloquentes. Onde estava? E chorava mais ainda. O que será dela? Descobriu que a amava. O pensamento desprezad...

a filha fiel

Quando vinha a sua cabeça algum julgamento correto de si mesmo, era sempre sem afeto. Uma frase, como dita pelo psicanalista ortodoxo, vinha à sua cabeça, ríspida como quem quer terminar uma consulta: "Você assim o faz, mas não quer". Era dele, com certeza, mas a ignorava como um filho que sempre diz a verdade mas o pai o rejeita. Preferia os pensamentos imbuídos de emoção, altivos e magistrais, nos quais poderia confiar a vida um pendor missionário e se livrar do abismo caótico no qual fingia não estar. Mas doía-lhe o peito. E continuava a se fiar nessas idéias, certo de que elas eram verdadeiras, tamanho o impacto que causavam em seu peito. Queria viver nesse constante estado de angina espiritual. Até que um dia, sem entender direito, chorou compulsivamente com uma idéia infantil em sua cama, mas a criança a época lhe fugiu, apenas ficando as idéias obesas grandiloquentes. Onde estava? E chorava mais ainda. O que será dela? Descobriu que a amava. O pensamento desprezad...

Chama

Fulgor flácido indolente, nela corre amarelos escarlates despejando o orvalho incandescente e fascinando vidros especulares. É a chama objeto do momento em que a alma pára.

Das metáforas que o dono do blog usa em dias festivos, quando a galhofa e a auto-comiseração o tomam por inteiro

dói só um pouquinho.

Registro do breu

Os amigos bebiam naquela noite. O momento então pulsou, o futuro sumiu. Quando morreria?-interrogou em seus pensamentos. Não parecia mortal. Uma conversa fútil não o prendia. Era sobre algum posto numa universidade que frutificaria a desejada segurança dez anos depois. Conversas vazias portam o germe da reflexão. Imaginou um escritor entediado nos jantares dos saraus, vendo sóis fulgurantes numa sopa de lentilhas.

Delirium

As mulheres que via, da pele canela, exalavam de sua glande vermelha um cheiro de mar. Ah! Impossibilidade perene das frestas nuas, passeiam sequiosas de invasão. Gritos e tapas. A violência desabroxou um odor.

a vaidade no congresso da alma.

Viu uma figura, e queria tirar um sentido dela, mas pensou que só tinha criatividade o bastante para criar dentro dos limites quadrados da imagem. Via um homem escalando uma montanha, um livro e um par de chinelas, odiosa combinação do exercício da criatividade. Queria escrever dois e dois são quatro, mas havia um concurso para se mostrar original. Dentro de si já havia o germe da vaidade, ele apenas encontrou um modo de expressar sua vil ambição em algum pretexto, a fim de criticá-lo e não assumir essa porção revoltante de si, frente ao partido que era maioria no congresso da alma.

alfabeto

Quem escreve, sugere ao outro o que a gramática impõe. Somos obedientes ao tom silencioso de nossa alfabetização. Calado, ouço as vozes de muitas águas na leitura de cada sílaba. Uma vez queria escrever um jota, mas ler um efe, no entanto não consegui. Pensei, iludido, que a vida seria um texto a ser lido, que a leríamos segundo as regras de uma gramática celestial. À medida em que vivia, analfabetizava-se.

Política

Ocasionalmente, entrava naquele carroussel de adultos, mas enjoava. Os adultos que brincavam chamavam as pessoas fora do brinquedo de alienados. Já era a terceira ou quarta vez que via o parquinho ser pintado de um verniz diferente, e os participantes da brincadeira insistiam em sentar e segurar nos cavalinhos com a tinta fresca, não se importavam de ver as cores anteriores e davam risos histriônicos, cantando cirandas de Marx e Engels.

Coltrane

Porque sempre é bom ter algo que não se ouviu Assim posterga-se a utopia num disco de Coltrane

Córdoba

Um dia pensou em amar uma mulher de Córdoba. Não sabia onde ficava, mas imaginava cabelos pretos e lisos numa praça de luz mercúrio. Ele sabe como gozar com a dor de nunca conseguir. Um dia desejou uma mulher de Córdoba, e nunca a viu.

os engenheiros

Águas descem ao cano e não são mais avistadas. Confia-se no engenheiro das tubulações. O engenheiro de tubulações tem de cor a planta dos canos, nenhum vazamento registrado. Confia-se nos processadores de esgoto. Os processadores de esgoto analisam, fluoretam e redistribuem a água. Confia-se nos engenheiros do emissário submarino. Os engenheiros do emissário submarino confiam nalguma lei da natureza que os garante a renovação do esgoto em águas oceânicas. Um dia os canos estouram, as pias vazam merda e os engenheiros estão a dormir. As praias continuam sujas.

amormancia

Começa sem fazer muitos predicados. O tema é retratado desde a Grécia Clássica. Salomão o escreveu, e na época comparar mulheres a belas vacas era elegante. Descreve o amor, mas com o menor descuido cairá num poço de clichês. Caiu. Já via as citações de flores, cor-de-rosa, lareiras, fogos de artifício e espumante. Via as bebedices, as penúrias do abandono. Kisch kisch kisch. Seu peito abriu-se generosamente a frases descompassadas de Gershwin, Andrew Lloyd Weber e Djavan. Justificou a falta de rigor por estar embriagado de um certo livor amoroso. Deixou de lado o cientista, a astrologia, a lógica cartesiana, e mergulhou. Só queria os fluídos e o esforço do gozo, a boca, o cheiro e as ferramentas para repetir isso ad eternum . Presença e toque. O cheiro acre das secreções femininas proporcionava-lhe uma gélida sensação na barriga, quentura no peito, e o resto do corpo era percorrido pela consciência, focalizada ora no pênis, ora na nádega direita, ora no pé. A seguir, dizia coisas das ...